Edição 270

Apenas três meses se passaram entre o lançamento de Pedro Paulo de Melo Saraiva - Arquiteto, de Luis Espallargas Gimenez (Editora Romano Guerra, 2016), e a morte de Pepê, apelido pelo qual Saraiva respondia a amigos e colegas. Ele morreu em São Paulo no último 16 de agosto, de falência múltipla de órgãos. Tinha 83 anos e mais de seis décadas de carreira, marcada por projetos arquitetônicos, docência e atuação política, condensados no recém-lançado livro. Eventos que deveriam apenas celebrar a chegada da obra às livrarias revelaram-se também despedida, como descreve o arquiteto e colega na Universidade Mackenzie Valter Caldana na seção Documento desta edição. A obra de Saraiva evidenciou a estrutura como traço, mantendo a tradição da Escola Paulista. Para além do concreto aparente, seus projetos ganharam contornos de excelência técnica e estética, como nas treliças em forma de cruz que envolvem as fachadas de vidro do edifício Acal.
O desenho que emerge a partir da estrutura se faz presente também em projetos criados em outros contextos e tradições. É o que mostra a chilena Casa Merello, do escritório WMR. Beirando a faixa de areia, ela é suspensa por pilares em V que formatam uma grelha em madeira. Apesar do grid em linhas retas, seu ponto central é curvo: uma rampa de skate de frente para o oceano Pacífico, espelhando assim as manobras de surfe realizadas a poucos metros dali.
"O importante é não parar de questionar. A curiosidade tem sua própria razão de existência. Não se pode deixar de estar incrédulo ao contemplar os mistérios da eternidade, da vida, da maravilhosa estrutura da realidade. É suficiente apenas tentar compreender um pouco deste mistério a cada dia"
Albert Einstein
Pilares e vigas em madeira entram na fórmula de outra residência litorânea deste número, a Casa Tijucopava, do AMZ Arquitetos. Nela, o cumaru, de origem amazônica, é instalado sobre uma base de concreto elevada, alternativa para trabalhar o terreno de acentuada aclividade. O resultado é um sistema construtivo ágil e racional, que faz da residência um mirante envolto pela Mata Atlântica.
O rigor geométrico, agora aliado à tecnologia, é trazido ainda na entrevista com o indiano Shajay Bhooshan, do Zaha Hadid Architects. Ele conta como pesquisas em robótica e a aplicação da programação estabelecem novos parâmetros para a arquitetura. Para Bhooshan, a estrutura é a lógica formal que comporta e potencializa a intuição profissional, transpondo as barreiras da criação. Tal concepção se aproxima do que Pedro Paulo de Melo Saraiva imprimiu em seus projetos, enquanto também desdobrava o papel do arquiteto em vários campos de atuação. Visão e obra que se mostram atuais para sempre.
MARIANA BARROS

01 de Setembro de 2016