Edição 277

Tem 17 anos a Lei Federal no 9.985/2000, que determina, nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental, ao empreendedor a obrigação de apoiar a implantação e a manutenção de Unidade de Conservação do Grupo de Proteção Integral, ou, no caso do empreendimento afetar uma Unidade de Conservação específica ou sua zona de amortecimento, ela deverá ser uma das beneficiárias da compensação ambiental, mesmo que não pertença ao Grupo de Proteção Integral. Como numa balança, empreendimentos de grandes proporções devem “devolver” ao meio ambiente o “estrago” que fizeram.
A verdade é que o bom projeto arquitetônico, paisagístico ou urbanístico não depende da Lei da Compensação Ambiental para apresentar como solução um conjunto equilibrado e coerente. Estamos na contramão do bom senso. Se a lógica é compensar, deveríamos, então, devolver às cidades todo o impacto retroativo das construções de antes da Lei da Compensação.
No coração de uma das metrópoles mais poluídas do mundo, Pequim, está um novíssimo distrito tecnológico, entregue há menos de um ano, que dá uma lição aos urbanistas. O Beiqijia Technology Business District, projeto do escritório anglo-americano Martha Schwartz Partners, ocupa uma área de 60 mil m2 com o mais diversificado conjunto de usos. Reúne torres comerciais e residenciais. E entrega à cidade, como que devolvendo às pessoas o favor de lhe emprestar uma gleba tão grande, uma área destinada ao lazer. O parque encravado entre o vale de empenas elevadas é um oásis.
A experiência de projetar “na cidade” e “para a cidade” não é um anseio recente. Perdeu-se em meio ao crescimento orgânico das megalópoles conturbadas. Daí, o caos urbanístico e a insuficiência de espaços de respiro. A compensação extrapola os limites do meio ambiente. Com o uso misto, equilibra-se o fluxo da cidade, a oferta de habitação e emprego, diminui-se o deslocamento. Não à toa faz sentido principalmente nas aglomerações onde o transporte sofre pelo esgotamento dos sistemas.
Apoiar-se em exemplos pós-modernos de reocupação de grandes glebas, como é o caso do projeto de Vittorio Gregotti para o Pirelli-Bicocca – de meados da década de 1980 – ou do novíssimo Beiqijia Technology Business District, de Marta Schwartz, pode ser um bom caminho para, num movimento à la Gilles Deleuze, bebermos de fontes distintas, em universos distintos, alimentando como um rizoma o fôlego para os novos projetos urbanísticos eficientes.
Por mais diversidade no urbanismo, na arquitetura e na sociedade: “Nossa vida moderna é tal que, quando nos encontramos diante das repetições mais mecânicas, mais estereotipadas, fora de nós e em nós, não cessamos de extrair delas pequenas diferenças, variantes e modificações”*. (Gilles Deleuze)

01 de Abril de 2017