Edição 274

Talvez a contemporaneidade apresente como principal desafio aos designers e arquitetos a infinita gama de materiais disponíveis para a concepção da forma. Há séculos a pergunta "forma antecede material ou material antecede a forma?" tem suscitado discuções intermináveis. Sobre a determinação do resultado plástico partindo do material, ou viceversa, jamais haverá consenso. Mas, se há quase cem anos, em 1923, Le Corbusier defendia o conceito de arquitetura como "o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz", pode-se aferir que, independentemente da matéria-prima ou da técnica construtiva, o que realmente importa são a forma e a maneira como o volume se revela ao espectador.
É nossa missão, como arquitetos, transformar neste século 21 a "máquina de morar", de Le Corbusier, finalmente na máquina de emocionar. Nisso, o projeto do Studio Fuksas, que ilustra nossa capa, tem 100% de êxito. Impossível ignorar a plasticidade da nuvem revelada em um sonho a Massimiliano Fuksas como a forma ideal para o gigante de 37 mil toneladas de aço - cinco torres Eiffels -, erguido na Cidade Eterna. Poderoso na forma, poderoso na emoção, o La Nuvola reproduz em um típico invólucro racionalista romano toda a organicidade idílica da nuvem que flutua com leveza no átrio translúcido.
Para quem ensina a fazer arquitetura, na academia, esse desafio imposto pelos novos materiais é cotidiano. Discentes anseiam pelo novo, e esse aspecto se revela sobremaneira quando se pensa no material. Não à toa, o Istituto Politecnico di Milano, o Polimi, ostenta uma das mais importantes materiotecas do planeta, base de materiais organizada e catalogada pela equipe liderada por Barbara del Curto, ph.D. em engenharia de materiais e focada no estudo da inovação de matéria-prima para arquitetura e design. Nossa equipe esteve com Barbara e pôde aferir, com propriedade, a importância didática do estudo dos materiais como elemento fundamental para a formação dos novos arquitetos.
Que venham os novos materiais, e com eles o desafio das soluções inovadoras compatíveis com a tecnologia de cada polímero ou liga metálica específica.
Oxalá as novas gerações acompanhem, em velocidade semelhante ao surgimento de novas matérias-primas, a produção de ideias revolucionárias para o uso e a concepção da forma.
Oxalá, em meio ao mundo em que domina o ceticismo e o sobrenatural desaparece, mais sonhos possam se transformar em realidade por meio da arquitetura.
Oxalá, em meio à profusão dessa inovação, continuemos a emocionar com a simplicidade do "jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz".

01 de Janeiro de 2017