Edição 279

Trabalhar arquitetonicamente a memória tem sido o desafio de muitos arquitetos no Brasil e no exterior. Embora filhos de um país jovem - que tem dificuldade de lidar com um patrimônio "recente" -, temos visto experiências interessantes de intervenções em edifícios históricos. O trabalho do retrofit em escala monumental parece mais óbvio, como é o caso do Auditório Araújo Vianna, que permanece uma obra aberta em solo gaúcho e ilustra as páginas de uma reportagem desta edição.
"Por muito tempo, perdura entre os homens a postura de lidar livremente com os artefatos arquitetônicos do passado, no sentido de adaptá-los às exigências do presente, sem impor qualquer limitação às alterações ou mesmo às demolições." (Eneida de Almeida)
O limiar entre a preservação consciente e as intervenções sobre edifícios que carregam consigo passado histórico relevante é o ponto focal da capa desta edição: com um projeto ousado - que opta por ressaltar as cicatrizes do tempo, e não maquiá-las -, Flores y Prats resgata a memória de um antigo edifício em Barcelona, exaltando o desgaste sofrido pelo abandono de três décadas.
Redescobrir a vocação das edificações não passa apenas por aspectos técnicos, como os relativos às instalações hidráulicas e elétricas, de obsolescência iminente. Trata-se de uma reinterpretação consciente do valor arquitetônico do edifício original que contempla a intervenção para atender à essa nova vocação.
Em vez de mimetizar a arquitetura do passado, experts como Renato Tavolaro, especializado em retrofit de arquitetura colonial portuguesa, optam pelo contraste entre o velho e o novo em suas composições. Assim, fica clara a leitura do projeto: novo é novo, velho é velho. Com todo o respeito que cada um dos estilos deve ter.
Se o significado do termo retrofit - colocar o antigo em forma - está claro para arquitetos, engenheiros e designers, vale uma reflexão: que tal um retrofit na forma de pensar a arquitetura? Que tal um retrofit dos modelos arcaicos de concepção de projeto? Que tal um retrofit da metodologia de concepção amarrada a estilos obsoletos?
Esse novo pensamento da concepção, tão necessário para a renovação da arquitetura brasileira, não surgirá por geração espontânea. Qual será o norte para esse processo de renovação iminente pelo qual nossa arquitetura, por bem ou por mal, passará?
Enquanto o arquétipo do moderno obsoleto ainda permanecer como norte para a concepção do projeto nos cursos de arquitetura Brasil afora, estaremos inertes às inovações que trarão essa nova identidade.
Valorizar o passado, colocá-lo em foco e evidenciá-lo com parcimônia não significa necessariamente impedir o florescer do novo. É justamente da convivência entre as gerações que nascerá uma nova estratégia para o novo.

01 de Junho de 2017