Edição 276

A clareza com que Jane Jacobs expôs as ideias antimodernas em Morte e Vida das Grandes Cidades – ainda na década de 1960 – parece perfeita meio século depois. “O uso misto é o caminho para garantir a pujança da cidade”, defendeu à época. Jacobs definiu conceitos-chave atemporais para o planejamento urbano, que nasceram da observação das regiões degradas de grandes cidades. Assim, chamou de zonas desertas de fronteira as áreas em torno de linhas que interrompem a conexão da cidade, como trilhos de trem e grandes avenidas.
Basta percorrer a região da Ceagesp, no bairro da Vila Leopoldina, na Zona Oeste de São Paulo, para entender o fenômeno urbano: à beira da Marginal Pinheiros, no perímetro do terreno de 700 mil m2 que abriga o entreposto paulistano, está o “deserto”. A chave para requalificar pontos da cidade como esse é, sem dúvida, a discussão.
Engajar a comunidade, envolver os urbanistas e promover um debate sobre o uso da cidade é fundamental. O anúncio da possível saída da Ceagesp rumo à Zona Norte da cidade reacendeu a discussão em torno da requalificação urbana de grandes glebas.
Na Europa, a “morte” de grandes plantas industriais — que ocupavam áreas gigantescas onde o espaço não é tão abundante quanto no Brasil — deu lugar a projetos que, a partir da adaptação e retrofit de edifícios industriais, reconstituíram a dinâmica urbana com a costura e reconexão dos tecidos, graças ao uso misto dos espaços. É o caso dos bairros King’s Cross, em Londres, e Bicocca, em Milão, ambos de vocação industrial, hoje requalificados e abertos à comunidade com os mais variados usos.
Por aqui, os ventos parecem soprar a favor desse movimento. O antigo Terminal Rodoviário de São Paulo, fechado no fim da década de 1980, deu lugar a um projeto que promete transformar a inóspita Região da Luz – tomada pelo tráfico – em um bairro dinâmico. O empreendimento que ocupará uma gleba de quase 100 mil m2 tem no uso misto seu principal trunfo. Moradia, educação, serviços e lazer serão dispostos numa região privilegiada em termos de infraestrutura. Movimento positivo, oposto aos imensos conjuntos habitacionais construídos à margem do tecido urbano, nas periferias, na contramão dos preceitos jacobianos.
Além dos ganhos urbanísticos, inciativas como as do Complexo Júlio Prestes, descrito acima, estão de acordo com a lição paisagística de reconhecimento proposta pelo inglês Gordon Cullen. Nossas cidades precisam de marcos visuais, pontos de identificação, referências para localização das pessoas em meio ao caos urbano. Coincidentemente lançado em 1961, mesmo ano da publicação da obra de Jacobs, o livro Paisagem Urbana, de Cullen, exprime a arte de tornar coerente e organizado, visualmente, o emaranhado de edifícios, ruas e espaços que constituem o ambiente urbano.
Por mais retrofits e requalificações urbanas está mais do que na hora de resgatar Jacobs e Cullen.

01 de Março de 2017