Edição 240

Em Manaus, 4 mil pessoas correm o risco de perder suas casas – ou a vida. Um laudo divulgado no fim de fevereiro pela Defensoria Pública do Estado do Amazonas aponta graves falhas construtivas nos condomínios Viver Melhor 1 e 2, entregues em 2013, os maiores do Brasil. O caso não é isolado. Há registros semelhantes em condomínios em Guarulhos (SP), Serra (ES) e em São Gonçalo, no Grande Rio, só para citar alguns exemplos. Milhares de unidades apresentam infiltrações, sofreram desabamentos parciais ou estão implantadas sobre áreas com graves riscos geotécnicos.
O Programa Minha Casa Minha Vida é superlativo na capacidade de reduzir o déficit habitacional tanto quanto coleciona problemas desse tipo. No auge do boom da construção, experimentado entre 2008 e 2011, construtoras corriam para cumprir cronogramas e empresas disputavam mão de obra e fornecedores. No meio técnico, uma certeza era dividida – os defeitos e falhas construtivas apareceriam cedo ou muito antes do que se imaginava.
Com as regras e recursos atuais, trabalhar com o segmento de baixa renda requer certa disposição para contrariar a lógica orçamentária ou – pior ainda – disposição de abrir mão das boas práticas, dos prazos, do planejamento e da boa engenharia. A despeito dos esforços setoriais e do governo federal, a incompatibilidade de preços com materiais e projetos de qualidade é notória, como se tudo passasse ao largo da NBR 15.575 (Norma de Desempenho).
Os dois sistemas construtivos mais utilizados nesse tipo de habitação – alvenaria estrutural e paredes de concreto moldadas in loco –, da mesma forma que permitem grande produtividade, requerem igualmente processos coordenados de planejamento e execução, sem os quais a qualidade e a segurança são fortemente afetadas. No caso da alvenaria, resistência adequada de blocos, grauteamento, tempo de carregamento e compatibilidade com elementos pré-moldados; nas construções de concreto moldadas in loco, slump e abatimento adequados, tratamento do concreto dentro da fôrma, cura, tempo de desforma. (Sistemas de fôrmas para paredes de concreto, aliás, é assunto desta edição.)
Práticas não recomendadas, malfeitos, desrespeito à boa engenharia não podem, como no passado, condenar sistemas construtivos comprovadamente eficientes. Téchne promete voltar ao assunto e mostrar alternativas para a melhoria da habitação de baixa renda – e também investigar as causas recentes de patologia sob três ângulos: projeto, qualidade dos materiais e observação das normas vigentes.

01 de Março de 2017